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quinta-feira, dezembro 19, 2013

VOAR, VOAR/ SUBIR, SUBIR

19/12/2013
Merval Pereira


Questão de custo



Com a decisão oficial a favor dos caças suecos Gripen, chega ao fim a novela que já durava 17 longos anos, passando por quatro governos e três presidentes, desde os tempos do segundo governo de Fernando Henrique, os dois de Lula e agora o de Dilma. 

Venceu afinal o parecer técnico da Aeronáutica dado em 2010, que colocou o caça francês Rafale, da empresa Dassault, em último lugar, contra a preferência política do Planalto na época de Lula, favorecendo o Gripen NG, da I sueca Saab.


O F-18 Super Hornet, da americana Boeing, saíra perdendo pontos na avaliação técnica da Aeronáutica, pela dificuldade histórica de os americanos transferirem tecnologia, e também na política, pois Lula chegou a anunciar em conjunto com o então presidente francês, Nicolas Sarkozy, a decisão pelos Rafale franceses. Agora então, com a questão da espionagem da NSA ainda não resolvida, os americanos não tinham chance alguma de vencer a concorrência.
Foi uma decisão, portanto, em que os custos econômicos e políticos foram decisivos. O relatório da Força Aérea Brasileira (FAB), com mais de 30 mil páginas, destacava o fator financeiro como decisivo para a classificação: o Gripen NG, por ser monomotor e ainda estar em fase de projeto, é o mais barato dos três concorrentes finais. Pesou também certamente o compromisso de transferência de tecnologia.
Domício Proença Júnior, do Grupo de Estudos Estratégicos, Programa de Engenharia de Produção da Coppe — UFRJ, recebe com cautela, e certa ironia, a decisão, que ele classifica de "o primeiro episódio da série "O caça — A compra"". Como faz questão de lembrar, "o respaldo armado da soberania no controle do espaço aéreo brasileiro seguirá sendo feito por expedientes" Isso porque começa agora o segundo episódio, que ele chama de "O caça II — A promessa"
Ele se refere à promessa de transferência de tecnologia: "Tomada a decisão, tem-se motivos que a justificariam, em diversos matizes e momentos: o desejo, esperança é ambição de ganhar controle de tecnologia, a soberania diante dos, códigos-fonte, uma decisão multicritério dos atributos de
desempenho e custos de aquisição e operação, entre outros"
Minimiza-se assim o fato, ressalta Proença Júnior, de que "se comprou uma aeronave que ainda não existe, cuja tecnologia, códi-gos-fonte e atributos só serão realmente sabidos algum tempo depois que ela vier a existir. Sorria a fortuna que o que se tenha então possa atender às necessidades de defesa do Brasil"
O professor Expedito Carlos Stephani Bastos, pesquisador de Assuntos Militares da Universidade Federal de Juiz de Fora, considera que "não foi uma decisão ruim" lembrando que o problema maior sempre são os custos de manutenção. Expedito Bastos acredita que, por se tratar de um país pequeno como a Suécia, haverá uma transferência de tecnologia que poderá em muito ajudar a indústria aeronáutica brasileira, não só a Embraer, mas também diversas outras empresas pequenas que produzem componentes aeronáuticos no país.
Por outro lado, destaca que, por se tratar de um projeto novo, pode no futuro mostrar-se um outro AMX, produção conjunta com a Itália que se acreditava que seria exportada para vários países, o que acabou não ocorrendo. Hoje apenas Brasil e Itália os utilizam, e muito em breve apenas nós iremos continuar com eles, até porque estamos fazendo uma modernização local.
Expedito Bastos ressalta que existe também a possibilidade de vir a ter uma versão naval que poderá interessar à Marinha do Brasil para operar em seu porta-aviões, o São Paulo, pois, na última edição da LAAD Security 2012 — Feira Internacional de Segurança Pública e Corporativa (Rio de Janeiro), foram apresentadas maquetes mostrando mais essa opção caso o Gripen fosse o escolhido.
Os pontos-chave
Com a decisão oficial a favor dos caças suecos Gripen, chega ao fim a novela que já durava 17 longos anos, vencendo afinal o parecer técnico da Aeronáutica.
A transferência de tecnologia e o custo mais baixo tanto da compra como da manutenção foram essenciais para a definição final da Aeronáutica.

Os Super Hornet, dos EUA, já problemáticos pela histórica recusa de transferência de tecnologia, foram abatidos definitivamente com a recente crise de espionagem.


adicionada no sistema em: 19/12/2013 03:53


19/12/2013
Ala petista defendeu opção por suecos


Denise Chrispim Marin


Amparada em argumentos técnicos, a escolha dos caças Gripen NG, da sueca Saab, pelo governo brasileiro, também respondeu ao lobby de um setor específico do PT. O prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho, defendia essa opção desde a retomada do processo de compra de jatos militares pela Força Aérea Brasileira, há oito anos.
Durante o longo processo, os Estados Unidos sinalizaram com uma possível parceria com o Brasil no setor industrial, entre a Boeing e a Embraer.
Em junho passado, durante uma feira aeronáutica na França - o soth Paris Air Show -, Marinho extraiu do presidente da Saab, Hakan Buskeh a promessa de construção de uma fábrica de aeroestruturas em São Bernardo, onde possivelmente os caças Gripen serão montados.
Três meses antes, ele esteve com o vice-ministro das Relações Exteriores da Suécia, Gunar Wieslander, em Estocolmo, e recepcionou os reis suecos, Gustav e Silvia, em visita a São Paulo. Seu lobby em favor de um parque aeronáutico no ABC, ancorado no investimento da Saab, era um dos mais constantes no Ministério da Defesa.
O componente político seria igualmente relevante se a escolha da Força Aérea Brasileira fosse pelo F18 Super Hornet ou o pelo Rafale, da francesa Dassault, segundo Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington e presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. A proposta da França caiu por causa do custo mais alto. A oferta americana foi prejudicada pela descoberta da rede de espionagem dos EUA nos gabinetes de Brasília e na Petrobrás e pela reação brasileira -o cancelamento da visita de Estado da presidente Dilma a Washington, prevista para outubro passado. Mas, sublinhou Barbosa, sempre houve desconfiança no governo brasileiro sobre a dose real de transferência de tecnologia da Boeing à Embraer e a intromissão do Senado americano nessa parceria.
"Os acordos de Marinho com o governo sueco e a Saab certamente foram decisivos", afirmou. "Qualquer escolha teria uma motivação política. O que me surpreende não é a opção pelo Gripen, mas o momento escolhido pelo governo para anunciá-la", completou.
Anteontem, o governo brasileiro declarou não ter considerado uma a carta aberta aos brasileiros, escrita por Edward Snowden, como um pedido de asilo político. Snowden foi o responsável pela divulgação à imprensa de documentos da Agência Nacional de Segurança (NAS, na sigla em inglês).
Outro ex-embaixador em Washington, Roberto Abdenur, concordou estar ainda em evidência o escândalo de espionagem americana no Brasil, com sérias implicações negativas para a relação bilateral. Mas ponderou que a decisão em favor dos Gripen "não foi contra a americana Boeing e a francesa Rafale". A França, lembrou ele, manterá sua parceria estratégica com o Brasil, ampliada durante a recente visita do presidente François Hollande com a inclusão do projeto de compra de supercomputadores franceses.
Abdenur explicou ser importante também para o Brasil preservar as múltiplas áreas de diálogo e de cooperação com os EUA. Mas a recomposição da confiança mútua dependerá, inicialmente, de um pedido de desculpas pela espionagem da NSA. Para Barbosa, o governo americano terá de fazer um primeiro gesto, como a elevação do Brasil ao mesmo nível de parceria estratégica mantida por Washington com a índia e a Turquia.

adicionada no sistema em: 19/12/2013 02:51

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