A proposta deste blogue é incentivar boas discussões sobre o mundo econômico em todos os seus aspectos: econômicos, políticos, sociais, demográficos, ambientais (Acesse Comentários). Nele inserimos as colunas "XÔ ESTRESSE" ; "Editorial" e "A Hora do Ângelus"; um espaço ecumênico de reflexão. (... postagens aos sábados e domingos quando possíveis). As postagens aqui, são desprovidas de quaisquer ideologia, crença ou preconceito por parte do administrador deste blogue.
PENSAR "GRANDE":
[NÃO TEMOS A PRESUNÇÃO DE FAZER DESTE BLOGUE O TEU ''BLOGUE DE CABECEIRA'' MAS, O DE APENAS TE SUGERIR UM ''PENSAR GRANDE''].
***************************************************
“Pode-se enganar a todos por algum tempo; Pode-se enganar alguns por todo o tempo; Mas não se pode enganar a todos todo o tempo...” (Abraham Lincoln).=>> A MÁSCARA CAIU DIA 18/06/2012 COM A ALIANÇA POLÍTICA ENTRE O PT E O PP.
----
''Os Economistas e os artistas não morrem..." (NHMedeiros).
"O Economista não pode saber tudo. Mas também não pode excluir nada" (J.K.Galbraith, 1987).
"Ranking'' dos políticos brasileiros: www.politicos.org.br
=========valor ...ria...nine
folha gmail df1lkrha
***
domingo, novembro 18, 2012
A HORA DO 'ÂNGELUS' [In:] MEDIUNIDADE E CIÊNCIA
Mente
Cientistas mapeiam a atividade cerebral de médiuns
Pesquisadores examinaram o cérebro de médiuns brasileiros e descobriram que áreas ligadas à linguagem tiveram atividade abaixo do esperado, o que poderia mostrar um estado de falta de foco e de perda da autoconsciência
Saiba mais
PSICOGRAFIAHabilidade atribuída a médiuns de escrever mensagens ditadas por espíritos, estabelecendo uma espécie de elo entre o mundo terreno e o espiritual.
HIPOCAMPO
São estruturas localizadas nos lobos temporais do cérebro humano responsáveis pelas memórias de curto e longo prazo. A relação entre seu tamanho e capacidade, no entanto, ainda não está clara. A região atua também no sistema de navegação espacial e na ativação de hormônios que respondem a situações de estresse, adaptando o corpo.
"O estudo contribui para o nosso entendimento da relação entre o cérebro e as experiências e práticas espirituais"
Andrew NewbergDiretor de Pesquisa no Myrna Brind Center of Integrative Medicine da Universidade Thomas Jefferson
Por que houve essa diferença na atividade cerebral de acordo com a experiência dos médiuns?
Eu acho que isso reflete como o cérebro pode ser treinado para uma tarefa particular — um efeito de treino. Por exemplo: quando uma pessoa começa a aprender a tocar piano, ou outro instrumento musical, ela precisa, a princípio, focar em aprender cada nota — presumivelmente ativando o cérebro. Mas, na medida em que ela se torna um expert, o cérebro fica mais eficiente e pode até diminuir sua atividade, uma vez que tocar torna-se uma coisa fácil, que pode ser feita sem pensar. Podemos estar vendo um fenômeno parecido, no qual os médiuns treinam seus cérebros para desempenhar uma atividade psicográfica.
O que a redução da atividade em certas partes do cérebro sugere?
Neste caso, o estudo sugere que áreas que normalmente funcionam quando estamos escrevendo ou realizando outras tarefas cognitivas, de certa forma, desligam quando a pessoa entra em estado de transe. Isso é consistente com a experiência (dos médiuns) segundo a qual eles não estão no comando da prática e do que estão escrevendo. Quando a atividade do lobo frontal diminui, a pessoa não sente que está realizando uma tarefa, e sim que essa tarefa está sendo feita para ela.
Qual a relação entre experiências espirituais e a atividade cerebral?
As experiências espirituais são muito diversificadas e incluem processos cognitivos, emocionais, de percepção e de comportamento. Dependendo do tipo de experiência, nós vemos diferentes maneiras no modo como o cérebro responde. Para a psicografia, o lobo frontal diminui sua atividade porque o transe faz com que eles sintam que não estão escrevendo.
Na opinião do senhor, qual a maior contribuição do estudo?
Eu acho que o estudo contribui para o nosso entendimento da relação entre o cérebro e as experiências e práticas espirituais. Também nos leva a pensar se os médiuns de fato estão conectados a um reino espiritual, ou se simplesmente estão usando seus cérebros para construir essas experiências. Esse estudo não nos dá uma resposta definitiva. Mas traz muita coisa para pensarmos.
http://veja.abril.com.br/
terça-feira, maio 25, 2010
VIDA ARTIFICIAL [In:] ''... VIDA LOUCA, VIDA BREVE'' *
Cristiane Segatto
a) Deus criou o mundo. A natureza é uma obra-prima e não deve ser alterada
b) Deus não criou o mundo, mas a natureza é perfeita. O homem não deve modificá-la
c) A natureza é uma engrenagem admirável, mas o homem tem o direito de modificá-la com o objetivo de tornar sua vida mais confortável
É possível que nos próximos dias você precise reafirmar suas convicções numa roda de amigos. Ou em família. Ou num bate-papo na mesa do bar. Foi divulgado ontem (20 de maio) um feito científico da maior importância. Algo que nos faz lembrar o anúncio da criação da ovelha Dolly, em 1997.
Se você tem mais de 20 anos deve se lembrar da comoção provocada pelo surgimento da ovelhinha mais famosa do mundo. Ao conseguir produzir o primeiro clone de mamífero da história, o escocês Ian Wilmut expandiu o conceito vigente sobre reprodução. Arrebentou o paradigma do papai e mamãe. Provou que é possível criar uma cópia de um animal (ou de um ser humano) a partir de uma célula de pele.
Dolly ampliou os horizontes da medicina. Graças a ela, podemos hoje sonhar com os benefícios da clonagem terapêutica. Ou seja: podemos admirar a ideia de criar tecidos ou órgãos humanos sob medida a partir de uma célula da pele do doente que precisa de um transplante. Por essa técnica, já foi possível criar pequenos pedaços de órgãos humanos. As experiências prosseguem. Não duvido que em breve essa possibilidade se torne um fato corriqueiro.
Dolly fez mais do que isso. Ela colocou à prova nossas convicções éticas, filosóficas e religiosas mais arraigadas. Os cientistas estariam brincando de Deus? O homem teria o direito de intervir sobre a natureza de uma forma tão radical? As discussões duraram anos.
E, agora, devem recomeçar. O americano Craig Venter diz ter criado uma célula sintética. É o primeiro organismo vivo que funciona com DNA feito pelo homem - e não pela natureza. Há mais de 15 anos Venter tenta construir uma forma de vida artificial. Várias reportagens publicadas na última década relataram cada um de seus pequenos passos. A mensagem era sempre a mesma: "Ele está quase lá". Parece que Venter finalmente chegou lá. Acompanhe o que ele fez, segundo o artigo científico que publicou na revista Science:
1) O código genético de uma bactéria (a Mycoplasma mycoides) foi decifrado. Como as bactérias têm apenas uma célula, elas são ideais para esse tipo de experiência
2) Venter descobriu a sequência de cada uma das "letras" químicas que formam o código genético da bactéria. Por exemplo: A (adenina), T (tamina), G (guanina), C (citosina)
3) Em laboratório, ele usou substâncias químicas que imitam a posição e a função de cada uma dessas letras. Assim, criou um DNA sintético (guardado no único cromossomo da célula)
4) Algumas "marcas-d'água" foram adicionadas para diferenciar o DNA sintético do DNA natural
5) O DNA artificial foi transplantado numa outra bactéria viva (Mycoplasma capricolum). A bactéria ficou com os dois DNAs (o artificial e o natural)
6) As bactérias começaram a se multiplicar. Algumas continham o DNA artificial. Outras apenas o DNA autêntico
7) O genoma sintético passou a produzir proteínas que, ao longo de várias gerações, foram substituindo as proteínas biológicas originais
8) Depois de trinta gerações, as bactérias tinham apenas o DNA sintético
Complicado? Sim. Assustador? Talvez. Uma coisa é certa: estamos diante de um conhecimento que não pode ser ignorado.
Venter disse que o organismo unicelular sintético inventado por ele é "a primeira espécie capaz de se reproduzir cujo pai é um computador".
Isso significa que um dia qualquer pessoa poderá criar diferentes formas de vida em casa, mesmo que não seja especialista em bioquímica? O computador será capaz de fazer o trabalho complicado por nós?
Especulações à la ficção científica não faltarão. É preciso saber separá-las dos fatos. É preciso também ter em mente que Venter não criou, a partir do zero, uma forma de vida totalmente nova.
"Ele não criou vida. Ele a imitou", disse o geneticista David Baltimore, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, ao jornal The New York Times. Se não pudesse copiar o funcionamento das bactérias perfeitamente banais que extraiu da natureza, Venter não teria chegado à célula sintética.
Jim Collins, professor de engenharia biomédica da Boston University, usou uma boa analogia para descrever, na revista Nature, o feito de Venter. "Imagine se fosse possível programar genes e células para que eles dessem origem a corações sintéticos que pudessem salvar um doente que precisasse de um transplante", escreveu Collins. "O paciente recuperado não poderia ser considerado uma nova forma de vida artificial. O mesmo vale para o microorganismo que Venter produziu."
Talvez o feito de Venter seja menos bombástico do que ele pretende nos fazer crer. Ainda assim, o tipo de intervenção que ele fez sobre a natureza é inédita e, claro, perturbadora. "Venter e seus colegas demonstraram que o mundo material pode ser manipulado para produzir aquilo que reconhecemos como vida", escreveu Arthur Caplan, professor de bioética da Universidade da Pensilvânia, na revista Nature.
Caplan lembra que há mais de 100 anos o filósofo francês Henri-Louis Bergson dizia que uma força vital (élan vital) distinguia a matéria viva da inorgânica. Segundo Bergson, nenhuma manipulação do mundo inorgânico permitiria a criação de qualquer coisa viva.
Essa perspectiva vitalista manteve-se de várias formas ao longo dos séculos. "O cristianismo, o islamismo, o judaísmo e outras religiões também defendem que uma alma constitui a essência da vida humana", escreveu Caplan. "Todas essas visões metafísicas são colocadas em dúvida pela demonstração de que a vida pode ser criada a partir de componentes não-vivos, ainda que esses componentes tenham sido originados de uma célula".
Se as ousadias de Venter abalam pilares filosóficos, elas também abrem grandes perspectivas para a evolução da ciência. Procurei dois especialistas que sempre me socorrem quando o assunto é bioquímica para saber o que eles esperam desse novo momento. Um deles é o americano Daniel E. Weeks, professor de genética humana e bioestatística da Universidade de Pittsburgh. O outro é o brasileiro Alysson Muotri, professor assistente da Universidade da Califórnia, em San Diego.
"O artigo de Venter revela que a eficiência dessa tecnologia é muito baixa. Uma minúscula alteração faz com a célula não funcione. Vai demorar para que outros cientistas consigam repetir esse feito, mas acredito que essa tecnologia terá mais impacto na nossa vida do que a criação da ovelha Dolly", diz Muotri. "As implicações são enormes. Não consigo pensar num limite."
Segundo ele, a tecnologia pode permitir a criação de microorganismos para fins ambientais específicos, como degradar o lixo ou o óleo derramado nos oceanos. Também seria possível reduzir o custo da produção de vacinas e criar novas drogas. Quem sofre de intolerância à lactose, por exemplo, poderia tomar uma pílula que levaria uma bactéria capaz de produzir no intestino a enzima lactase (que ajuda a digerir a lactose). É claro que essa bactéria poderia ser nociva. Quem garante que ela não iria provocar úlceras, por exemplo. Nada é para já, mas as perspectivas para a saúde são promissoras.
O interesse principal de Muotri é a pesquisa básica. Ele acha que a biologia sintética poderá ajudar a responder questões fundamentais, tais como o funcionamento do cérebro. "Poderemos recriar o genoma de um Neandertal num sintetizador e movê-lo para dentro de uma célula-tronco embrionária. Assim, poderíamos produzir neurônios Neandertais e compará-los com os neurônios dos humanos modernos". Não seria genial?
A invenção de Venter é excitante e preocupante. Não há dúvida de que ela poderia ser usada para o mal. Ela pode permitir a criação de armas biológicas sofisticadas. Já imaginaram o que seria uma bactéria letal destinada a liquidar um único grupo étnico? "Para evitar isso, o governo americano já está vigiando todos os laboratórios capazes de criar sequências sintéticas longas, como o laboratório do Venter, aqui ao lado", diz Muotri.
Sempre que o homem modifica a vida -- seja pelo corriqueiro melhoramento genético de uma árvore frutífera ou pela biologia sintética - a sociedade deve se preocupar com a segurança e com uma relação satisfatória entre riscos e benefícios.
A ciência deve ser livre para criar, mas é a sociedade quem dá o tom do que é aceitável. O caso da clonagem é um bom exemplo de controle social. Depois de calorosos debates, um acordo firmado nas Nações Unidos baniu a clonagem para fins reprodutivos. Chegou-se ao consenso de que apenas a clonagem para fins terapêuticos é aceitável.
Algo parecido pode acontecer com a biologia sintética. "Ela pode melhorar nossa saúde e nosso bem-estar", diz Daniel E. Weeks, professor de genética humana e bioestatística da Universidade de Pittsburgh. "Mas precisamos tomar todas as precauções necessárias para garantir que as novas tecnologias sejam usadas com segurança", diz. "Devemos criar mecanismos de regulação sem prejudicar a liberdade científica num campo que pode trazer muitos benefícios à humanidade", afirma Weeks.
A ciência é um agente que faz avançar as fronteiras éticas e morais. O tempo todo ela testa os valores da sociedade e estimula profundas discussões. Venter não é o único cientista a praticar a biologia sintética. Talvez ele seja apenas o mais rico e ousado. Esses cientistas estão brincando de Deus? Não é a primeira vez que ouvimos isso. Nem será a última. Foi assim com as transfusões de sangue, com a fertilização in vitro, com a clonagem, com as células-tronco, com os transgênicos.
A novidade choca, mas em pouco tempo é incorporada tão amplamente a ponto de não nos lembrarmos como era a vida antes dela. "A criatividade humana não tem limites. Podemos aproveitá-la de forma positiva e regulamentada", diz Muotri.
Será que daqui a trinta anos nossos netos ficarão surpresos quando contarmos que a criação da primeira célula sintética foi motivo de espanto e controvérsia? Até lá, quantas intervenções já teremos feito nesse nosso mundo complexo, imperfeito e fascinante?
----------------
(*) Cazuza.
---------
domingo, setembro 14, 2008
A HORA DO "ÂNGELUS" [A Morte cerebral]
CIÊNCIA & RELIGIÃO
Grande parte da imprensa em todo o mundo, inclusive no Brasil, ignorou ou não deu destaque para o questionamento dos critérios para determinação de morte cerebral na quarta-feira (03/09) na capa do jornal L´Osservatore Romano, órgão oficial do Vaticano, pelo editorial "I segni della morte" (Os sinais da morte), assinado por Lucetta Scaraffia, jornalista e professora de história contemporânea da Universidade de Roma La Sapienza.
O texto se referiu a "novas pesquisas, que põem em dúvida o próprio fato de que a morte do encéfalo provoque a desintegração do corpo". O editorial teve como "gancho" os 40 anos desde a publicação, no Jama (Journal of the American Medical Association), em agosto de 1968, do relatório "A definition of irreversible coma". Considerado um marco na história da medicina, esse relatório elaborado por sete professores de medicina, um de teologia, um de direito e um de história, todos da Universidade Harvard, redefiniu o conceito de morte, substituindo o critério de cessação da atividade cardíaca, até então vigente, pelo de ausência de atividade cerebral, que passou a ser adotado inclusive para estabelecer a possibilidade de remoção de órgãos para transplantes.
Uma das fontes principais do editorial de Scaraffia foi o livro Morte Cerebrale e Tranpianto de Organi, lançado neste ano por Paolo Becchi, professor de filosofia do direito da Universidade de Lucerna, na Suíça, e da Universidade de Gênova, na Itália. Segundo Becchi, um dos erros fundamentais do "Relatório Harvard" foi buscar uma solução científica para o complexo problema ético e legal que surgiu com o primeiro transplante de coração, realizado por Christiaan Barnard em dezembro de 1967, na África do Sul, em circunstâncias de incerteza sobre a morte da jovem doadora de 20 anos – agravadas pela suspeita de descaso com ela por ser negra em um país de regime racista.
Outra referência do editorial do Osservatore foi o livro Finis Vitae: Is brain death still life?, organizado por Roberto de Mattei, subcomissário de ciências humanas do Conselho Nacional de Pesquisa, em Roma. Publicada originalmente em 2006, essa obra, cuja versão italiana foi lançada também neste ano, reúne estudos de 21 cientistas e juristas de diversos países que participaram de um encontro na Academia Pontifícia de Ciências, promovido em 2 e 3 fevereiro de 2005 pelo papa João Paulo II. Com a morte do pontífice dois meses depois, a publicação do livro, prevista inicialmente para ser feita pela academia, acabou sendo realizada pela editora Rubbettino.
No dia seguinte ao editorial, poucos jornais de grande circulação repercutiram o assunto, como o britânico The Times ("Vatican called on to re-open debate on brain death as end of life"). Na Itália, devido à importância de tudo o que diz respeito ao Vaticano, a história teve chamadas de primeira página nos jornais La Repubblica ("La morte cerebrale non è la fine della vita") e Corriere della Sera ("L´Osservatore e la polemica sulla morte cerebrale").
No Brasil, a repercussão teve espaço na mídia impressa com a matéria "Para Vaticano, morte cerebral não caracteriza mais a morte", de O Estado de S. Paulo. A principal fonte dos portais foi a BBC Brasil, já na quarta-feira (3/9), com o texto "Jornal do Vaticano diz que vida não acaba com morte cerebral", traduzido da reportagem de Assimina Vlahou, da BBC News em Roma, que foi reproduzido pela Folha Online, G1, Último Segundo (iG) e outros.
No mesmo dia da publicação do editorial de Lucetta Scaraffia, o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, afirmou que o texto da jornalista e historiadora é "uma contribuição interessante e de peso", mas ressalvou que ele "não pode ser considerado como a posição do Magistério da Igreja", como ressaltou a nota "Declaração vaticana sobre morte cerebral", do boletim da rede Zenit – O mundo visto de Roma.
Risco para transplantes
Um aspecto que tem tradicionalmente desestimulado a repercussão em torno de qualquer questionamento sobre os critérios de definição de morte cerebral é a compreensível preocupação em evitar uma crise na insuficiente doação e captação de órgãos para transplantes. De um modo geral, neurologistas consultados por jornalistas sempre enfatizam sua apreensão com a divulgação de histórias, como a do caso que teria ocorrido em novembro do ano passado, em Oklahoma City, nos Estados Unidos, com o jovem Zach Dunlap, de 21 anos, que teria sobrevivido após ter passado por todo o protocolo de morte cerebral. A afirmação consta no depoimento gravado em vídeo e transcrito do médico Leo Mercer, do United Regional Hospital, à reportagem "`Dead´ man recovering after ATV accident", da NBC News.
Na internet não se registrou nenhum acompanhamento desse caso, por parte dos principais jornais do país, para confirmar ou refutar a veracidade das informações dessa notícia. Em fevereiro deste ano, foi a vez da rede ABC News com a reportagem "Medical miracle: Woman back from brink of death". A matéria relatou a sobrevivência de uma mulher de 65 anos, Rae Kupferschmidt, de Saint Paul, Minneapolis, após o diagnóstico de morte cerebral, segundo o depoimento do médico Brad Helms. E em junho alguns veículos reproduziram a notícia "French near-death case stir debate on organ donors", da agência Reuters, sobre outro acontecimento semelhante em Paris, que não forneceu nomes e creditou suas afirmações ao diário Le Monde.
Além desse lado espinhoso do assunto e da rápida negativa oficial de endosso do Vaticano, para muitos editores deve ter pesado na decisão de não ter reportar o editorial do Osservatore o seu enfoque mais religioso do que científico. No plano da opinião pública, muitas posições religiosas – como aquelas contrárias ao aborto, à distribuição de preservativos, ao uso de células-tronco embrionárias humanas em pesquisas e à interrupção de gravidez em casos de anencefalia de fetos – têm sido cada vez mais consideradas anacrônicas, anticientíficas e contrárias ao interesse público. Sem falar que uma parte expressiva dos jornalistas que cobrem ciência tende a valorizar muito mais os fatores ligados às ciências naturais do que aqueles da ordem das humanidades, como as considerações de ordem ética, jurídica e filosófica.
No entanto, as críticas aos protocolos médicos de diagnóstico de morte não se devem apenas a objeções religiosas e a críticas por parte das desprestigiadas humanidades. Existe há muitos anos uma polêmica de ordem técnica entre pesquisadores em relação ao assunto, como reconheceu até mesmo um dos mais influentes defensores do "Relatório Harvard", o neurologista holandês Eelco Wijdicks, da Clínica Mayo, em Rochester, nos Estados Unidos, no estudo "Brain death worldwide: Accepted fact but no global consensus in diagnostic criteria", publicado em janeiro de 2002 na revista científica Neurology.
Foi justamente esse aspecto polêmico o que ressaltou a reportagem "CFM será obrigado a explicar morte cerebral", publicada pelo signatário em 5/10/2003 na Folha de S.Paulo, que por sua vez comentou no editorial "Diagnóstico difícil", de 12/10/2003. Quatro dias depois, foi a vez do artigo "A morte", de Hélio Schwartsman, articulista do jornal, com as seguintes afirmações:
"Atualmente, a maioria dos países trabalha com a noção de morte encefálica. A idéia aqui é que existe um ponto a partir do qual a destruição das células do tronco cerebral é de tal ordem que o indivíduo, ainda que submetido a suporte ventilatório e cardíaco, não teria mais como recuperar-se, evoluindo necessariamente para o óbito. Pessoalmente, eu concordo com essa tese, mas é forçoso admitir que ela é epistemologicamente problemática. Só saberíamos se a morte é de fato inevitável se esperássemos o paciente morrer, o que não podemos fazer se a nossa meta é utilizar seus órgãos em transplantes. A questão é que, embora falemos em `diagnóstico´ de morte encefálica, na verdade estamos fazendo um `prognóstico´, o qual é, por definição, precário e sujeito a intercorrências. Talvez eu esteja sendo meio radical, mas, para sermos rigorosos, só quem faz diagnósticos em medicina é o legista, e, mesmo assim, nem sempre. Todos os demais médicos trabalham apenas com prognósticos."
Críticas ao protocolo
A reportagem publicada na Folha referiu-se a 40 questões sobre a segurança do protocolo estabelecido pelo CFM (Conselho Federal de Medicina) por meio da Resolução CFM 1.480, de 1997, elaboradas a partir de pesquisas publicadas em revistas científicas especializadas. Uma interpelação judicial com essas questões, encabeçada pelo advogado Celso Galli Coimbra, de Porto Alegre, teve resposta do CFM em 10/12/2003, que, por sua vez, receberam réplica em 20/04/2004.
Em grande parte dos países são adotados protocolos semelhantes ao do CFM para morte encefálica (termo empregado pelos especialistas em língua portuguesa, mais preciso segundo a concepção de que a falência do tronco encefálico, situado na base do cérebro, acarreta a irreversibilidade do coma). Uma das exceções é o Japão, onde esse procedimento não é obrigatório, como explica o artigo "Reconsidering brain death", de Masahiro Morioka, professor de ética contemporânea da Univesidade Municipal de Osaka. Nesse país, o primeiro transplante de coração só foi feito em 1999, ou seja, 31 anos após o pioneiro, de Barnard.
O "Relatório Harvard" foi contestado por pesquisadores de diversas especialidades. O mais ilustre deles foi Hans Jonas (1903-1993), filósofo alemão que viveu suas últimas décadas nos Estados Unidos. Em seu livro Against the Stream, ele enfatizou que o interesse pela necessidade de captar órgãos, mesmo para salvar vidas, jamais deve interferir na definição de morte:
"Eu sustento que, puro como esse interesse é em si próprio, isto é, o de salvar vidas, sua intrusão na tentativa teórica de definir a morte a torna impura; o Comitê de Harvard nunca deveria ter-se permitido adulterar a pureza de seu exemplo científico seduzindo-o com a expectativa desse benefício extrínseco – embora sumamente atraente." (Hans Jonas, Against the stream: comments on the definition and the redefinition of death. Philosophical essais: From the ancient creed to technological man. Englewwod Cliffs: Prentice Hall, 1974, p. 133. Citado por David Lamb, obra citada abaixo, p. 220.)
Uma crítica de grande repercussão ao "Relatório Harvard" é o artigo "A change of heart and a change of mind? Technology and the redefinition of death in 1968", da epidemiologista Mita Giacomini, professora da Universidade McMaster, em Ontário, no Canadá. Publicado em 1997 na revista Social Science & Medicine, esse estudo ressaltou que prevaleceu na atuação do comitê o ponto de vista de cirurgiões de transplantes – e não o de neurologistas ou neurocirurgiões, que são os especialistas em morte encefálica –, os quais pressionaram pela redução do período entre os testes neurológicos para asseguram melhor condição de órgãos ao serem removidos para transplantes.
Um dos estudos mais recentes favoráveis à revisão dos critérios vigentes de determinação de morte encefálica é "Brain death: too flawed to endure, too ingrained to abandon", publicado em meados de 2007 na revista The Journal of Law, Medicine & Ethics por Robert D. Truog, professor de anestesiologia e de ética médica de Harvard. Em contrapartida, o "Relatório Harvard" foi enfaticamente endossado também em 2007 pelo artigo "The Declaration of Sydney of Human Death", publicado no Journal of Medical Ethics, cujo autor principal é Calixto Machado, presidente do Instituto de Neurologia e Neurocirurgia de Havana, em Cuba.
Na comunidade científica brasileira, o principal contestador desses critérios de morte encefálica é o neurologista Cícero Galli Coimbra – irmão do citado advogado autor da interpelação ao CFM –, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo e um dos 21 autores do livro Finis Vitae, mencionado no editorial do L´Osservatore Romano. Seu estudo "Implications of ischemic penumbra for the diagnosis of brain death", foi publicado em dezembro de 1999 na Brazilian Journal of Medical and Biological Research, uma revista científica indexada em diversas bases internacionais. O principal foco de sua crítica, assim como de alguns pesquisadores de outros países, é o chamado teste de apnéia, que, segundo eles, pode precipitar a morte do paciente em vez de diagnosticá-la. Desde 1998, Coimbra mantém uma página sobre o assunto no portal da Unifesp.
De acordo com a maior parte dos protocolos em vigor no mundo, esse teste deve ser aplicado após duas séries de testes neurológicos (verificação de pupilas fixas e arreativas expostas à luz e de ausência de reflexos a outras estimulações). O intervalo entre as duas seqüências varia conforme a idade do paciente em coma: a) seis horas a partir de dois anos de idade; b) 12 horas para os de um ano completo a dois anos incompletos; c) 24 horas para os de dois meses completos a um ano incompleto; e d) 48 horas para os de 7 dias completos a dois meses incompletos. O teste de apnéia consiste em ventilar o paciente com oxigênio (O2) durante dez minutos e, em seguida, desconectá-lo do ventilador durante mais dez minutos, durante os quais se deve observar se aparecem movimentos respiratórios. A aplicação desse protocolo não pode ser feita por profissionais envolvidos na captação de órgãos nem em transplantes.
Omissão da imprensa
A Resolução CFM 1.480/1997 estabelece também a obrigatoriedade de "exame complementar que demonstre inequivocadamente a ausência de circulação sangüínea intracraniana ou atividade elétrica cerebral, ou atividade metabólica cerebral". Para isso são usados SPECT (tomografia de emissão de pósitron único), ultra-som transcraniano, ressonância magnética, eletroencefalogramas especials ou angiografia cerebral. Neurologistas ouvidos pela reportagem da Folha de 2003 afirmaram que preferem, por considerar mais seguro, realizar algum exame complementar antes do teste de apnéia, uma vez que o protocolo não prevê a ordem em que os dois procedimentos devem ser executados.
Por outro lado, declarações estarrecedoras em defesa do teste de apnéia por parte de outros neurologistas foram feitas em duas reuniões de uma comissão técnica do CFM realizada em 1998 em São Paulo, conforme mostram as transcrições oficiais de suas gravações, registradas na interpelação judicial de 2003 acima citada. Por exemplo:
"(...) no mundo atual, o custo benefício é uma coisa muito importante. Hoje em dia, o fluxo de dinheiro permeia todas as relações humanas. Então, não só para mitigar o sofrimento do paciente [em coma cerebral], como para mitigar o sofrimento da [sua] família, também mitiga-se o gasto excessivo com o diagnóstico de morte encefálica."
Um dos principais defensores do teste de apnéia, o britânico David Lamb, professor de filosofia da ciência e de bioética da Universidade de Birmingham, tem sido também, por outro lado, um severo crítico de justificações dos critérios de morte encefálica extrínsecas ao bem-estar do paciente. Em uma de suas principais obras, ele afirmou:
"Numa atmosfera de despesas cambaleantes com a saúde e de agências de provisão social consciente dos custos, existe o perigo muito real de que os médicos sejam pressionados do tratamento de pacientes em estados vegetativos e não-cognitivos para outros mais urgentes. Quaisquer debates desse tipo devem ser entendidos como uma questão econômica, ética, política ou legal, o que é diferente da questão fatual de determinar o instante da morte." (David Lamb, Ética, Morte e Morte Encefálica. Tradução de Jorge Curbelo e Rogéria Cristina Dias. São Paulo: Office Editora, 2001, p. 224.)
Além das objeções de ordem ética e religiosa levantadas, a polêmica científica no senso estrito sobre esse assunto persiste, como sugere um recente estudo de revisão bibliográfica "Brain death: Should it be reconsidered?", elaborado por Konstantinos Karakatsanis, professor do Departamento de Medicina Nuclear da Universidade Aristóteles de Tessalônica, na Grécia. Publicado em agosto pela revista Spinal Cord, que integra as revistas científicas do grupo Nature, o trabalho conclui pela necessidade de abandonar completamente não só o teste de apnéia, mas o próprio conceito de morte encefálica, e de retomar como critério a cessação da atividade cardíaca.
Apesar de tudo o que se tem constatado sobre o sensacionalismo por grande parte da imprensa e de esse assunto ser de grande apelo, o receio de prejuízo para os transplantes tem pesado contra a divulgação, sem falar nos complexos aspectos técnicos e éticos envolvidos. No entanto, apesar de toda a polêmica que há anos se arrasta em torno da matéria e do interesse público que ela envolve, a medicina parece estar precisando de uma séria cobrança da sociedade para proceder a uma solução. A imprensa pode e deve mostrar que essa polêmica existe e confrontar suas posições antagônicas com responsabilidade e independência.
sexta-feira, maio 30, 2008
CÉLULAS-TRONCO: O FIM DA POLÊMICA [?]
"Houve uma desaceleração. Alunos de pós-graduação, e até mesmo eu, ficamos receosos em investir em uma carreira que corria o risco de ficar ilegal", afirma o neurocientista Stevens Kastrup Rehen, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que coordena um dos primeiros laboratórios nacionais a ter sucesso no cultivo dessas células.
As células-tronco embrionárias são consideradas esperança de cura para algumas das doenças mais mortais. Elas podem se converter em praticamente todos os tecidos do corpo humano. Entretanto, o método de sua obtenção é polêmico, já que a maioria das técnicas implementadas nessa área exige a destruição do embrião. Para o ex-procurador-geral da República Cláudio Fonteles, que propôs a ação contra as pesquisas com células-tronco, o embrião pode ser considerado vida humana --esse foi um dos argumentos utilizados por ele para pedir a inconstitucionalidade do artigo 5º da Lei de Biossegurança. Na visão de Rehen, a aprovação das pesquisas também deve elevar o investimento na área, tanto pelos governos, quanto pela iniciativa privada. O grupo do pesquisador estuda, desde 2005, o uso de células-tronco embrionárias para a cura do mal de Parkinson e de lesões medulares. O objetivo é produzir neurônios que possam ajudar nessa cura. O ministro José Gomes Temporão (Saúde) comemorou a decisão do STF. "As pesquisas de células-tronco abrem inúmeras possibilidades para encontrarmos respostas para doenças que não têm tratamento hoje. O resultado permite à ciência brasileira assumir uma nova posição no cenário internacional", afirmou, em comunicado.
Normas
Pelos termos do artigo 5º da Lei de Biossegurança, mantido pelo STF, podem ser utilizadas as células-tronco fertilizadas in vitro e não utilizadas. A regulamentação prevê que os embriões usados estejam congelados há três anos ou mais e veta a comercialização do material biológico. Também exige a autorização do casal. Mas, mesmo na comunidade científica, há quem discorde desses procedimentos. A bioquímica Lenise Garcia, professora do departamento de biologia celular da UnB (Universidade de Brasília), classifica a liberação das pesquisas como "uma derrota para a dignidade humana", em um cenário em que o homem "perde consciência de si mesmo". Para Garcia, as pesquisas deveriam priorizar o uso de células adultas, que segundo ela, já mostraram resultados mais efetivos. "Ninguém foi curado por célula embrionária, o que tem dado resultado são as células adultas. Você vai tirSara Saad, professora titular de hematologia e hemoterapia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), discorda dessa avaliação. Para ela, as células-tronco embrionárias ainda não foram estudadas o suficiente. "Precisamos ter estudos em grande escala, para obtermos resultados mais rápidos. Se ficarmos travando [as pesquisas], não vai deslanchar nunca", diz. "Sabemos que [as células-tronco embrionárias] têm um grande potencial, mas estamos apenas começando. É algo que se estuda há pouquíssimo tempo". Apesar disso, Saad, que pesquisa a utilização de células-tronco adultas, afirma que não tem interesse em usar as embrionárias.
Religião
A CNBB (Conferência Nacional de Bispos do Brasil) lamentou a decisão do STF de liberar as pesquisas. Para a instituição, o embrião "tem direito à proteção do Estado". "Portanto, não se trata de uma questão religiosa, mas de promoção e defesa da vida humana, desde a fecundação, em qualquer circunstância em que esta se encontra", afirma, em nota. Lenise Garcia, que afirma ser católica, também nega que apenas argumentos religiosos podem ser utilizados para reprovar esse tipo de pesquisa. "O argumento é científico. É a ciência que me diz que, quando um espermatozóide se funde com um óvulo, forma-se um ser humano", diz a professora da UnB. Segundo Mayana Zatz, geneticista e pesquisadora da USP (Universidade de São Paulo), o próximo passo será submeter os projetos de pesquisa já existentes nessa área às comissões de ética e agências de financiamento. "Os ministros do Supremo é que tornaram possível essa vitória. Agora, estamos no mesmo barco do resto do mundo", afirmou. Ela disse também estar otimista em relação aos resultados que serão obtidos no futuro. "Espero que, dentro de alguns anos, quando nós tivermos resultados, aqueles que votaram contra digam, 'eles tinham razão", afirmou.
FELIPE MAIA; da Folha Online com EDUARDO CUCOLO, da Folha Online, em Brasília - 3005.
terça-feira, abril 01, 2008
"PORQUE SOU UM CIENTISTA, O MEU PAPO É FUTURISTA, É LUNÁTICO..." (*)
5º lugar: Mendel errou tudo, diz superagrônomo soviético 4º lugar: "Dados confirmam: o Sol gira ao redor da Terra!"
3º lugar: "Encontrado o 'elo perdido' entre humanos e macacos"
2º lugar: "Seus problemas energéticos acabaram!"
A campeã: "Fizemos clones humanos", diz cientista sul-coreano